Challenge #1
A pequena Sophie não reclamava, mas, seu rostinho mostrava sua dor e o esforço que fazia para parecer forte. Não havia sido nada demais: seguia uma joaninha no quintal quando tropeçou, arranhando o joelho. Ainda assim, veio correndo e sem fazer um som sequer apontou para os riscos em sua perna, como um soldado pediria a amputação: resignada e corajosa.
Era tão dramática... Tão docemente dramática!
Feridas já limpas, gaze e esparadrapo sobre as pequenas escoriações, com um beijo na testa, dado pela mãe, e um cubo mágico entre os dedos, saiu do quarto devagar qual uma nuvem de fumaça. Na mesma lentidão, tal lembrança se esvaiu de mim.
---
Era estranho pensar que o rosto alegre na foto fora meu, que a minha infância fora assim feliz. Ficava ainda mais estranho se a constrastássemos com a minha adolescência, se analisassemos aquela luz contra a escuridão mórbida da minha juventude.
Se, de alguma forma, os traços daquele rosto lembravam os meus, podiam ser também os de qualquer outra - de olheiras menos profundas e futuro mais brilhante.
Não. Definitivamente, já não me reconhecia mais ali.
---
Lembro-me bem, daquilo que sobre mim se dizia na minha cidade natal, em diferentes idades...
Até os treze, ouvia-se:
"Ela é linda, não é? E tão inteligente... Vai ser o orgulho da família."
Dos treze aos dezessete:
"É tão linda quanto, hm, distraída, essa garota. É tão vívida e dá-se com todos. (Acrescente malícia ao tom de voz. Nem quando ainda inocente perdoavam meus futuros 'crimes') Mas é tão sem juízo.Sabe, ouvi dizer dela com o filho do vizinho. Vai dar trabalho a família..."
Dos dezessete até hoje...
"Largou-se, a menina dos Gutierrez. Se viu na vida cedo demais e tanto fez, que levou o pai desta para os braços de Deus. (Pausa dramática. Sinal da Cruz. Porque eram todos muito cristãos, aqueles putos pecadores...) Sempre soube... Desde o berço já se sabia que pra muito não iria prestar. Só fez trazer desgosto aos pais, a criança. E não lhes culpo... Há uns que nascem já com isto entranhado em si."
E repare então você, meu leitor, em uma coisa; quantas linhas gasta-se para elogiar? E para pôr em dúvida? E para condenar?!
Chamam-me de subversiva por lá, mas, foram eles quem subverteram as coisas. Os negócios, os casamentos, os filhos, os amores e até a lei do Cristo. Afinal das contas...
'Aquele que nunca pecou, que atire a primeira pedra.'
---
Acordei na cama de Ian com alguém que não conhecia acariciando minha tatuagem, com a ponta do indicador. Abri os olhos e sorri ao estranho, estendendo-lhe a mão - vi que não era má figura, já sem saber se era um cliente ou um amigo qualquer.
- Ian me disse que não se lembraria, então... - O estranho apertou minha mão e retribuiu o sorriso, meio sem jeito. - Sou Lars e sou primo do Ian.
- Ah, que bom, Lars! - suspirei aliviada - Pra ser sincera não queria mesmo trabalhar hoje... Me chamo Sophie.
- Eu sei. Ele foi fazer o café pra nós e...
- Nós transamos?
Só me dei conta de que o tom casual da pergunta o havia constrangido quando vi seu rosto branco ficando vermelho.
- Ah, sim. Quer dizer, não. Não transamos, já percebi.
Seguiram-se alguns segundos de riso sem graça e silêncio constrangedor, ao que, para quebrar o gelo, Lars perguntou:
- O que quer dizer sua tatuagem?
Eu sabia que, algum dia, ia preferir não ter contado a verdade, mas, não quis mentir. Eram 07:15 da manhã, estava cedo demais pra isso. Disse-lhe, no tom mais simples e inocente que pude:
- É latim. Um ensinamento de família... 'O amor mata.'
- Hm... É uma bela lição, uma bela frase.
- Não. - Disse amargamente, talvez mais pra mim do que ao visitante. - É uma lição necessária, só. Acredite; não há beleza alguma em seu sentido literal.
Era tão dramática... Tão docemente dramática!
Feridas já limpas, gaze e esparadrapo sobre as pequenas escoriações, com um beijo na testa, dado pela mãe, e um cubo mágico entre os dedos, saiu do quarto devagar qual uma nuvem de fumaça. Na mesma lentidão, tal lembrança se esvaiu de mim.
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Era estranho pensar que o rosto alegre na foto fora meu, que a minha infância fora assim feliz. Ficava ainda mais estranho se a constrastássemos com a minha adolescência, se analisassemos aquela luz contra a escuridão mórbida da minha juventude.
Se, de alguma forma, os traços daquele rosto lembravam os meus, podiam ser também os de qualquer outra - de olheiras menos profundas e futuro mais brilhante.
Não. Definitivamente, já não me reconhecia mais ali.
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Lembro-me bem, daquilo que sobre mim se dizia na minha cidade natal, em diferentes idades...
Até os treze, ouvia-se:
"Ela é linda, não é? E tão inteligente... Vai ser o orgulho da família."
Dos treze aos dezessete:
"É tão linda quanto, hm, distraída, essa garota. É tão vívida e dá-se com todos. (Acrescente malícia ao tom de voz. Nem quando ainda inocente perdoavam meus futuros 'crimes') Mas é tão sem juízo.Sabe, ouvi dizer dela com o filho do vizinho. Vai dar trabalho a família..."
Dos dezessete até hoje...
"Largou-se, a menina dos Gutierrez. Se viu na vida cedo demais e tanto fez, que levou o pai desta para os braços de Deus. (Pausa dramática. Sinal da Cruz. Porque eram todos muito cristãos, aqueles putos pecadores...) Sempre soube... Desde o berço já se sabia que pra muito não iria prestar. Só fez trazer desgosto aos pais, a criança. E não lhes culpo... Há uns que nascem já com isto entranhado em si."
E repare então você, meu leitor, em uma coisa; quantas linhas gasta-se para elogiar? E para pôr em dúvida? E para condenar?!
Chamam-me de subversiva por lá, mas, foram eles quem subverteram as coisas. Os negócios, os casamentos, os filhos, os amores e até a lei do Cristo. Afinal das contas...
'Aquele que nunca pecou, que atire a primeira pedra.'
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Acordei na cama de Ian com alguém que não conhecia acariciando minha tatuagem, com a ponta do indicador. Abri os olhos e sorri ao estranho, estendendo-lhe a mão - vi que não era má figura, já sem saber se era um cliente ou um amigo qualquer.
- Ian me disse que não se lembraria, então... - O estranho apertou minha mão e retribuiu o sorriso, meio sem jeito. - Sou Lars e sou primo do Ian.
- Ah, que bom, Lars! - suspirei aliviada - Pra ser sincera não queria mesmo trabalhar hoje... Me chamo Sophie.
- Eu sei. Ele foi fazer o café pra nós e...
- Nós transamos?
Só me dei conta de que o tom casual da pergunta o havia constrangido quando vi seu rosto branco ficando vermelho.
- Ah, sim. Quer dizer, não. Não transamos, já percebi.
Seguiram-se alguns segundos de riso sem graça e silêncio constrangedor, ao que, para quebrar o gelo, Lars perguntou:
- O que quer dizer sua tatuagem?
Eu sabia que, algum dia, ia preferir não ter contado a verdade, mas, não quis mentir. Eram 07:15 da manhã, estava cedo demais pra isso. Disse-lhe, no tom mais simples e inocente que pude:
- É latim. Um ensinamento de família... 'O amor mata.'
- Hm... É uma bela lição, uma bela frase.
- Não. - Disse amargamente, talvez mais pra mim do que ao visitante. - É uma lição necessária, só. Acredite; não há beleza alguma em seu sentido literal.

1 Comentários:
eu leio e eu acho lindo.
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