quinta-feira, 29 de julho de 2010

@Vapor Barato/Flor da Pele, de Gal Costa e Zeca Baleiro

Éramos quatro ou cinco no quarto, às quatro ou cinco da manhã. Quatro ou cinco baseados depois da quarta ou quinta dose de vodca, falávamos todos uma língua muito própria, porém comum à todos do ambiente.
Já fazia algum tempo, havíamos passado do estágio de risadaria desatada. Éramos, então, uma versão mais livre e sóbria de nós mesmos.
Darío, um imigrante espanhol a quem Iana vinha amorosamente torturando, dedilhava o violão com a cabeça sobre ele recostada e movimentava-se conforme a melodia, em algo que lembrava muito convulsões em câmera lentíssima. Ao vê-lo tocar, entendi o porquê do interesse de Iana. Não que o rapaz fosse feio, mas, poderia facilmente se perder na multidão, não fosse por este alheamento tão íntimo e sensual.
Felipe, com quem Iana crescera e a quem amara, era melancolicamente solidário aos lamentos espanhóis, libertos em forma de melodia. Era provavelmente a única coisa que tinha em comum com Darío, além da cega e desesperada fidelidade a ela.
Ela era Iana. Um misto de filha de sereia com índia. Não havia mesmo quem pudesse resistir. Mas, ela também tinha seus fracos, e, ainda que não soubesse, o maior deles era Felipe. Corria em segredo - um segredo quase público - que ela havia cedido a ele, durante o encontro de suas famílias no Natal anterior. O que não corria em segredo, porque na verdade ninguém sequer sonhava, é que esta havia sido sua primeira e única vez. E que não fora sexo; fora amor. Havia herdado da mãe, entretanto, o dom de transparecer indiferença, mesmo morrendo por dentro, mesmo chapada. Então, lá estava ela, sorrindo bobamente, numa aparente letargia, quando o que mais queria era correr daquele quarto com Felipe para qualquer outro lugar onde houvesse somente eles dois.

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